Durante décadas, o escritório de contabilidade foi um dos negócios mais estáveis que existiam no Brasil: carteira fiel, receita previsível, baixa concorrência local. Essa estabilidade está a mudar. O setor atravessa a maior onda de consolidação da sua história — impulsionada por fundos de private equity, pela pressão tecnológica, e por um problema que muitos fundadores adiaram durante anos: a sucessão. Este artigo explica por que a consolidação acelera, qual é o verdadeiro desafio da sucessão nos escritórios contábeis, que vantagens existem em integrar um grupo maior, e onde o mercado está mais aquecido.

Por que o setor contábil está a consolidar

O ponto de partida é a fragmentação. O Brasil tem mais de 85 mil escritórios de contabilidade, e cerca de 99% são pequenos ou micro — com baixa escala, forte dependência de trabalho manual e capacidade tecnológica limitada. Um mercado assim fragmentado é, por definição, um mercado maduro para consolidar.

E a consolidação já começou. Nos Estados Unidos, as transações entre firmas contábeis mais do que duplicaram entre 2018 e 2023, com mais de 300 negócios só em 2023. Grupos como a BDO USA adquiriram mais de 20 firmas regionais entre 2020 e 2023, e a CLA (CliftonLarsonAllen) completou mais de 50 aquisições em cinco anos. Em 2025, o M&A entre firmas contábeis cresceu 26% face ao ano anterior e continua a subir em 2026, segundo relatório da Capstone Partners citado pela Accounting Today.

O Brasil está a percorrer a mesma curva, com cerca de uma década de atraso. As forças que puxam a consolidação são quatro:

Capital à procura de escala. Fundos de private equity, grupos estratégicos e plataformas de tecnologia perceberam que um setor fragmentado, com receita recorrente, é um alvo ideal. Comprar vários escritórios e integrá-los numa estrutura comum gera ganhos de escala que nenhum deles alcançaria isolado.

Pressão tecnológica. Menos de 30% dos escritórios brasileiros usam plataformas integradas de gestão. A automação deixou de ser um luxo e passou a ser uma condição de sobrevivência — e investir em tecnologia é muito mais fácil com a escala de um grupo do que com a receita de um escritório pequeno.

Busca de margem. A contabilidade tradicional, puramente fiscal, tem margens cada vez mais apertadas. O crescimento está nos serviços de maior valor — consultoria, BPO financeiro, planeamento tributário, o modelo de "contabilidade como serviço" (CaaS) — que exigem estrutura e investimento.

Sucessão. E, por baixo de tudo, há o problema que quase ninguém quer discutir: uma geração inteira de fundadores aproxima-se da reforma sem um sucessor preparado. É aqui que a venda ou a fusão deixa de ser uma oportunidade financeira e passa a ser a solução de um problema real.

85mil+
Escritórios de contabilidade no Brasil
Fonte: Bhub, 2025
99%
São pequenos ou micro escritórios
Fonte: Bhub, 2025
+26%
Crescimento do M&A contábil em 2025
Fonte: Capstone Partners

O desafio da sucessão nos escritórios contábeis

De todos os fatores, a sucessão é o mais subestimado — e o mais pessoal. O problema tem uma raiz simples: num escritório de contabilidade, a carteira de clientes depende quase sempre da relação direta com o fundador. É ao fundador que o cliente liga quando tem um problema, é da sua palavra que confia, é a sua assinatura que dá segurança. Esse vínculo é o ativo mais valioso do escritório — e também o mais frágil.

Quando o fundador se aproxima da reforma, três cenários costumam aparecer. No primeiro, há um filho ou filha disposto a assumir — mas, como em qualquer empresa familiar, herdar o negócio não é o mesmo que ter vocação ou preparação para o gerir. No segundo, há um colaborador de confiança que poderia assumir, mas falta-lhe capital para comprar a participação do fundador e falta ao escritório uma estrutura que torne essa transição viável. No terceiro — o mais comum — não há sucessor nenhum, e o fundador vai adiando a decisão até que a saúde, o cansaço ou uma proposta inesperada o obriguem a decidir sob pressão.

O risco de não planear é concreto: sem sucessor, o valor construído ao longo de 20, 30 ou 40 anos pode simplesmente evaporar-se. Os clientes percebem a incerteza, começam a procurar alternativas, e a carteira — que era o património do fundador — desfaz-se gradualmente. O escritório que valia milhões em operação vale muito pouco quando o dono já não está lá e ninguém segurou os clientes.

É por isso que, cada vez mais, a venda para um grupo maior ou a fusão com outro escritório deixou de ser vista como uma "desistência" e passou a ser entendida como a forma mais inteligente de resolver a sucessão: preserva a carteira, dá continuidade aos clientes e à equipa, e converte em liquidez o valor que o fundador levou uma vida a construir.

As vantagens de integrar um grupo maior

Para muitos donos de escritório, a ideia de "vender" ainda carrega um peso emocional. Mas quando se olha para o que a integração num grupo maior oferece — tanto ao escritório como ao próprio fundador — a conversa muda. As vantagens mais relevantes:

Escala e capacidade de investimento. Um grupo consegue investir em tecnologia, automação e sistemas que um escritório isolado nunca conseguiria amortizar. Isso traduz-se em mais eficiência, menos trabalho manual e margens melhores.

Serviços de maior valor. Com estrutura, o escritório deixa de competir apenas em preço na contabilidade fiscal e passa a oferecer consultoria, BPO financeiro e planeamento tributário — serviços com margens mais saudáveis e receita mais previsível.

Retenção de talento. Um grupo oferece uma estrutura de carreira que um escritório pequeno não consegue. Os bons profissionais, que de outra forma sairiam para crescer, encontram espaço para evoluir dentro da própria organização.

Continuidade para os clientes. Quando o fundador sai, a carteira não fica órfã. Há uma estrutura que assume a relação, mantém o nível de serviço e garante que o cliente não sente a transição como uma rutura.

Liquidez e alívio para o fundador. Para o dono, significa transformar em dinheiro o património construído — e, muitas vezes, continuar na operação durante uma transição, com muito menos peso administrativo e sem a solidão de carregar o negócio sozinho.

Dito de forma direta: integrar um grupo não é abdicar do que se construiu. É dar ao que se construiu uma estrutura para durar para além do fundador — e receber, em vida, o valor desse trabalho.

Quanto vale um escritório de contabilidade

A pergunta inevitável é: quanto vale o meu escritório? A resposta honesta é que depende, acima de tudo, da qualidade e da recorrência da receita — não do faturamento bruto.

Como referência internacional, nos Estados Unidos as firmas pequenas (até US$ 5 milhões de receita) transacionam a múltiplos de 4x a 6x EBITDA; as firmas médias e grandes (acima de US$ 10 milhões) a 8x a 12x EBITDA; e as firmas com receita altamente recorrente ou base tecnológica podem superar 15x. No Brasil, os múltiplos tendem a ser mais baixos — mas a lógica é a mesma, e o que puxa o valor para cima ou para baixo é sempre a mesma coisa: o quanto a receita é previsível e o quanto o negócio depende do dono.

Na prática, os fatores que mais influenciam o valuation de um escritório contábil são:

A boa notícia para o fundador é que vários destes fatores podem ser trabalhados antes da venda — e, feito com antecedência, esse trabalho pode aumentar significativamente o valor que um comprador está disposto a pagar.

Onde o mercado está mais aquecido

A consolidação não acontece de forma uniforme pelo país. A actividade concentra-se nas regiões Sudeste e Sul, sobretudo nas zonas urbanas de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais. A razão é simples: é onde há maior densidade de PMEs (os clientes dos escritórios), melhor adopção tecnológica, e escritórios com receita recorrente mais estruturada — exactamente o perfil que os consolidadores procuram.

Quanto à dimensão da onda: estima-se que pelo menos 5% dos escritórios contábeis brasileiros possam ser adquiridos ou fundidos num horizonte de 3 a 5 anos — projeção baseada nos benchmarks dos mercados norte-americano e britânico, que percorreram esta mesma curva de consolidação cerca de uma década antes do Brasil. Pode parecer pouco, mas 5% de mais de 85 mil escritórios são milhares de transações — e são, tipicamente, os escritórios mais bem estruturados e com melhor carteira que lideram esse movimento.

Para o dono de um bom escritório, a leitura estratégica é esta: a janela de maior valor é agora, enquanto a procura por ativos de qualidade é alta e a oferta ainda não se esgotou. Os primeiros a entrar num processo bem conduzido costumam capturar os melhores múltiplos; os últimos, quando o mercado já está saturado de vendedores, negoceiam em posição mais fraca.

M&A como solução de sucessão: onde a Oporto entra

Na Oporto Capital Partners, olhamos para o setor contábil como um dos exemplos mais claros de como o M&A e a sucessão se cruzam. O dono de um escritório que pensa em reduzir o ritmo, que não tem sucessor claro, ou que percebe que o próximo ciclo de investimento em tecnologia é grande demais para enfrentar sozinho, está perante uma decisão que é, ao mesmo tempo, financeira e de legado.

O nosso papel é ajudar esse empresário a analisar as alternativas com rigor — manter e preparar uma sucessão interna, fundir-se com um par, ou vender a um grupo consolidador — e, uma vez tomada a decisão, conduzir o processo de forma a maximizar o valor e proteger o que mais importa: a carteira, a equipa e a reputação construída. Não com a pressão de fechar uma transação a qualquer custo, mas com o objetivo de encontrar o melhor caminho para aquele fundador e aquele escritório.

Mário Cardoso é fundador e Managing Partner da Oporto Capital Partners, boutique independente de assessoria em M&A especializada no middle market brasileiro. Com mais de 20 anos de experiência em fusões e aquisições no Brasil e na Europa, conduz processos de venda, sucessão e consolidação em setores de serviços — incluindo o setor contábil. Escritórios em São Paulo, Curitiba e Porto (Portugal).