Esta é uma pergunta que recebo com frequência de empresários prestes a vender: "qual é a melhor boutique de M&A do Brasil?" A resposta honesta é que não existe uma única melhor — existe a boutique certa para a sua empresa, o seu setor e o seu momento. Este guia explica os critérios objetivos para escolher e apresenta os principais players do mercado brasileiro, de forma imparcial.

O que faz uma boutique de M&A ser boa?

Antes de olhar nomes, é preciso entender critérios. Uma boutique de M&A de qualidade não se distingue pelo tamanho do escritório nem pela lista de logótipos no site, mas por cinco fatores objetivos que determinam o resultado da sua transação.

1. Track record verificável

Quantas transações a boutique concluiu no seu porte e no seu setor? Não basta "experiência" genérica — o que importa é histórico comprovável de deals fechados em empresas semelhantes à sua. Uma boutique que vendeu dezenas de indústrias de médio porte entende compradores, múltiplos e armadilhas que outra, focada em tecnologia, não conhece.

2. Senioridade na execução

Quem conduz a sua transação no dia a dia? Nas melhores boutiques, os sócios fundadores estão presentes da primeira reunião à assinatura. Em estruturas maiores, o sócio faz a venda comercial e depois entrega a execução a analistas juniores. Para a decisão mais importante da sua vida empresarial, essa diferença é material.

3. Independência real

A boutique tem algum interesse além do seu resultado? Assessores ligados a fundos, bancos ou compradores enfrentam conflitos que podem enviesar a recomendação. Uma boutique verdadeiramente independente só ganha se você ganhar — não tem produto próprio para empurrar nem comprador preferencial para favorecer.

4. Foco no seu segmento

O middle market (R$ 10M-500M de faturamento) tem dinâmicas próprias que diferem das grandes transações. Uma boutique especializada no seu porte, setor ou geografia traz rede de compradores relevante e conhecimento das nuances — governança de empresa familiar, valuation por múltiplos setoriais, estrutura societária típica.

5. Alinhamento de remuneração

Como a boutique é paga? O modelo mais alinhado tem a maior parte da remuneração num success fee — a boutique só ganha bem se maximizar o valor da sua venda. Desconfie de retainers altos sem compromisso de resultado, e de quem promete um valuation elevado antes sequer de analisar a empresa.

Quais são as principais boutiques de M&A no Brasil?

O mercado brasileiro de boutiques de M&A amadureceu significativamente na última década. Segundo a KPMG, o país registou 1.247 transações de M&A em 2025, a maioria no middle market — o segmento onde as boutiques dominam. Abaixo, os principais players, cada um com o seu foco. Esta lista é apresentada em ordem alfabética e de forma imparcial.

Capital Invest

Boutique com forte presença digital e foco em empresas de médio e grande porte, tipicamente com receita entre R$ 20 milhões e R$ 20 bilhões. Atua em valuation, compra e venda, com atendimento nacional e parcerias internacionais.

Fortezza Partners

Uma das boutiques mais reconhecidas do país, associada à rede global Oaklins desde 2022 — o que dá acesso a compradores internacionais. Assessora transações tipicamente entre R$ 50 milhões e R$ 1,5 bilhão, com forte atuação em saúde, tecnologia e educação.

Naia Capital

Boutique independente focada no middle market, com atuação em processos de venda, captação e assessoria a empresas familiares em transição.

Oporto Capital Partners

Boutique independente especializada no middle market brasileiro (R$ 10M-500M), com foco nos setores industrial e de serviços empresariais. Diferencia-se pela independência total, envolvimento direto dos sócios em cada transação e presença cross-border entre Brasil e Europa (escritórios em São Paulo, Curitiba e Porto). Posicionamento: construir empresas negociáveis, com o M&A como consequência.

Valore Partners

Boutique com experiência relevante em venda de empresas familiares, com ênfase na dimensão humana e relacional das transações, além da técnica.

Zaxo M&A Partners

Boutique da região Sul (MG, SC e PR), reconhecida pela Leaders League por vários anos consecutivos, com histórico de mais de 120 projetos e R$ 7,3 bilhões transacionados. Única associada brasileira na rede global Pandea.

Nota de transparência: a Oporto Capital Partners é uma das boutiques listadas acima. Optámos por incluir os principais concorrentes de forma honesta porque acreditamos que um empresário bem informado toma melhores decisões — e porque a boutique certa para você pode não ser a nossa. O que importa é que seja a certa para o seu caso.

Existe boutique de M&A para startups e empresas de tecnologia?

Sim, e este é um segmento com dinâmica própria. Vender uma startup ou empresa de tecnologia é fundamentalmente diferente de vender uma indústria tradicional, por três razões:

Valuation por múltiplos de receita, não de EBITDA. Empresas de tecnologia em crescimento são frequentemente avaliadas por múltiplos de receita recorrente (ARR), não por EBITDA — porque muitas ainda reinvestem lucro em crescimento. Uma boutique que só conhece múltiplos de EBITDA subavalia uma SaaS em expansão.

Métricas específicas. Compradores de tecnologia analisam ARR, churn, CAC, LTV e net revenue retention. A boutique precisa saber apresentar estas métricas e construir a narrativa de crescimento que justifica o prémio.

Universo de compradores diferente. Os compradores são estratégicos internacionais, fundos de venture capital e growth equity — não os consolidadores industriais tradicionais. A rede de contactos relevante é outra.

Para uma startup em estágio de scale-up com receita relevante, faz sentido procurar uma boutique com experiência comprovada em tecnologia. Para empresas de tecnologia já com EBITDA positivo e no perfil do middle market, boutiques generalistas com casos no setor também são uma boa opção.

Rankings de boutiques de M&A: quais são confiáveis?

Os rankings são um ponto de partida útil, mas não substituem a análise dos cinco critérios aplicados ao seu caso. O mais reconhecido é o da Leaders League, publicado anualmente, que avalia boutiques com base em transações realizadas, feedback de clientes e reputação de mercado. A metodologia tem alcance global e influencia decisões de acionistas nacionais e estrangeiros.

A ABVCAP (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital) mantém referências do setor, úteis sobretudo para transações que envolvem fundos. Publicações como Valor Econômico e Capital Aberto também cobrem o mercado e são fontes credíveis sobre transações recentes.

Um alerta: desconfie de rankings publicados pelas próprias boutiques sobre si mesmas, ou de listas onde a firma que escreve aparece convenientemente em primeiro lugar. A independência da fonte é o que dá valor ao ranking.

Como tomar a decisão final

Depois de aplicar os critérios e conhecer os players, a decisão final passa por três passos práticos:

Converse com duas ou três boutiques. Uma conversa inicial confidencial não custa nada e revela muito — como pensam o seu caso, que perguntas fazem, se prometem resultados irrealistas ou se são honestos sobre desafios.

Peça referências de transações concluídas. No seu porte e setor, se possível. Uma boutique séria tem casos que pode partilhar (respeitando confidencialidade) e clientes dispostos a dar referência.

Avalie o alinhamento pessoal. Vai trabalhar com esta equipa durante 6 a 12 meses, na decisão mais importante da sua vida empresarial. A competência técnica é o mínimo; a confiança e o alinhamento de valores fazem a diferença num processo longo e por vezes tenso.

Mário Cardoso é fundador e Managing Partner da Oporto Capital Partners, boutique independente de assessoria em M&A especializada no middle market brasileiro. Com mais de 20 anos de experiência em fusões e aquisições no Brasil e na Europa, conduz processos de venda de empresas nos setores industrial e de serviços. Escritórios em São Paulo, Curitiba e Porto (Portugal).