Valuation gap — a diferença entre o valor que o vendedor atribui à empresa e o que o comprador está disposto a pagar — é a principal causa de transações de M&A que não chegam a fechamento. No middle market brasileiro, com juros elevados e custo de capital alto, o valuation gap aumentou nos últimos anos. Entender por que acontece e como reduzir essa diferença é fundamental para qualquer empresário que esteja a considerar uma venda.
Por que o valuation gap é tão comum no middle market brasileiro
A maioria dos empresários do middle market avalia a sua empresa de forma intuitiva — baseada no faturamento, nos anos de mercado, ou no valor que um conhecido recebeu por uma empresa similar. O comprador avalia de forma técnica — baseada no EBITDA normalizado, no múltiplo do sector e no custo de capital. Estas duas perspectivas raramente convergem sem um processo estruturado.
Com a Selic a 15% em 2025 e o custo de capital das empresas comprimido, o valuation gap aumentou. Os compradores conseguem pagar múltiplos mais baixos para manter o retorno esperado pelos seus investidores. O empresário, que formou a sua expectativa num período de múltiplos mais altos, sente que o comprador está a fazer uma proposta injusta — quando na verdade está a usar a matemática correcta para o ambiente actual.
As 5 principais causas do valuation gap em empresas familiares
- EBITDA não normalizado: o empresário usa o lucro contabilístico em vez do EBITDA normalizado. Despesas pessoais, pró-labore abaixo do mercado e gastos não recorrentes distorcem a base de cálculo.
- Múltiplos desajustados ao risco: o empresário aplica múltiplos de mercado sem descontar pelos riscos específicos — dependência do fundador, concentração de clientes, passivos não provisionados, estrutura jurídica fraca.
- Custo de capital ignorado: com juros altos, o comprador precisa de um múltiplo mais baixo para obter o retorno esperado. O empresário que formou a expectativa num período de juros baixos sente que o comprador está a subvalorizar a empresa.
- Valor emocional vs. valor financeiro: décadas de trabalho, o nome da família, as relações com clientes — têm um valor genuíno para o fundador que não se traduz em múltiplo de EBITDA. O comprador compra o futuro, não o passado.
- Ausência de competição entre compradores: sem competição, o único comprador dita o múltiplo. Com múltiplos compradores a fazer propostas em simultâneo, o múltiplo sobe e o valuation gap fecha-se naturalmente.
Como reduzir o valuation gap antes de iniciar o processo de M&A
A melhor forma de reduzir o valuation gap não é durante a negociação — é antes do processo começar. Há três acções com maior impacto:
1. Fazer um valuation independente antes de ir ao mercado. Um valuation rigoroso, feito por uma boutique independente com conhecimento do sector, dá ao empresário uma expectativa fundamentada e realista — e elimina a principal fonte de valuation gap, que é a expectativa baseada em percepção em vez de dados.
2. Preparar a empresa para reduzir os factores de desconto. Governança, normalização do EBITDA, redução da dependência do fundador e diversificação da base de clientes reduzem os descontos que o comprador aplica ao múltiplo base do sector.
3. Criar competição entre compradores. O processo sell-side bem estruturado, com múltiplos compradores a receber o CIM em simultâneo e a apresentar propostas dentro de um prazo, é o mecanismo que mais eficazmente fecha o valuation gap — porque o mercado, e não o comprador individual, define o preço.